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O TETO
 

no escuro,
o teto era meu espelho.

 

eu o olhava como quem procura respostas
num céu de gesso.
e sentia.
só sentia.

não havia ainda palavras grandes,
nem teorias, nem cartas dramáticas.
só a certeza de que o peito era fundo demais

pra uma criança tão pequena.

 

a noite vinha
e comigo ficava.
madrugada a dentro,
minha alma caminhava sozinha
pelas perguntas que ninguém tinha feito ainda.

 

pensava no amor
como quem pensa num planeta distante.
pensava na dor
como quem já a conhecia de outros carnavais —
mesmo sem nunca ter dançado.

 

chorava,
mas sem vergonha.
chorava como quem se lava por dentro,
como quem se entende.

 

e havia beleza.
muita.
silenciosa, mas viva.
como as estrelas que ninguém vê da janela
mas estão lá, fiéis.

 

talvez eu tenha sido feliz
sem saber.

 

porque eu era inteiro,
de um jeito que hoje, às vezes,
esqueço de ser.

 

 

 

Autor: D'Assi's Colares

Direito Reservado Plínio Colares 2018

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