MÃE
Tem dias que a casa acende sozinha,
como se alguém tivesse chegado antes.
O vento arruma as cortinas,
e há perfume no ar,
sem que ninguém tenha entrado.
Sinto passos no corredor
que param diante da porta.
Mas ninguém bate.
Na cozinha, a chaleira canta
como se soubesse a hora exata
em que o chá costumava ser servido.
E eu quase sirvo duas xícaras,
por instinto.
As plantas continuam florindo,
mesmo sem aquela voz
que conversava com elas.
Tem dias em que escuto meu nome
dito da forma exata
que só uma pessoa sabia dizer.
Mas vem do nada.
Ou do tudo que já foi.
A ausência tem um jeito curioso
de ficar —
ela se acomoda nas coisas pequenas,
nos silêncios entre frases,
na dobra da toalha
e no pão que ninguém mais corta igual.
E ainda assim,
há um tipo de presença nisso tudo.
Não a que volta,
mas a que nunca foi.
Autor: Dassi's Colares